Macacos

July 31st, 2009

Os símios exercem um grande fascínio nos seres humanos. No imaginário fantástico, eles assumem como que uma identidade meio-humana. Para os filipinos que deram nome ao orangotango, este é chamado de “homem da floresta” (orang hutan).

A semelhança, atribuída por Charles Darwin a uma ancestralidade comum próxima entre humanos e outros símios (principalmente os hominídeos: chimpanzés, gorilas e orangotangos), nos faz enxergar os macacos como criaturas que se encontram entre a natureza e a humanidade, nem somente animais nem completamente humanos.

Sun Wukong, o Rei Macaco, da mitologia chinesa, por exemplo, era um macaco extremamente poderoso que, embora tivesse desenvolvido grande inteligência, habilidade e força, não conseguia deixar de ser travesso e ardiloso. Uma personalidade com que se poderia fazer uma analogia com Loki (na mitologia escandinava), Exu (no Candomblé) e o Diabo (no Cristianismo).

Além disso, quando tenta se transformar em ser humano, não consegue esconder sua verdadeira natureza, pois sua cauda (ou seu rosto, em algumas representações) não desaparece na metamorfose. Isso tudo o faz perceber que ele precisa ser fiel à sua natureza, ou seja, por mais que se esforce, não deixará de ser um macaco, como o são todos os seus irmãos da Montanha Flor e Fruto.

Em O Planeta dos Macacos (1968), de Franklin J. Shaffner, vemos algo parecido. A evolução que permitiu a chimpanzés, gorilas e orangotangos falar, andar e criar cultura não os privou de seus instintos. Ora, se o ser humano se criou a partir de símios parecidos com chimpanzés e se tornou um ser cuja natureza animal ainda é obscura em grande parte, os macacos dessa história deveriam também se tornar menos propensos a manifestar aspectos que os identificam de perto com os hominídeos dos quais descenderam. Tanto que, quando aparece um chimpanzé “normal”, eles logo o veem como um igual.

No mais recente Planeta dos Macacos (2001), Tim Burton acentua ainda mais essa característica, e temos a impressão de que os macacos apenas mudaram de tamanho e de capacidade de aprendizado. No entanto, essas mudanças não deveriam deixar de implicar modificações em todos os outros aspectos da vida social dos macacos.

Pois a cultura, para se reproduzir, precisa recriar os seres sobre os quais domina. Sem renunciar ou repirmir vários de seus instintos, os seres humanos não conseguiriam manter o modo de vida social que construiu em sua história, na qual se elaborou a ideia de que a animalidade deve ser abandonada.

Cogumelos e koopas

June 9th, 2009

Na série de video games Super Mario, o Reino dos Cogumelos  (Mushroom Kingdom) é habitado principalmente por uma raça de cogumelos antropomórficos, conhecidos simplesmente como cogumelos (toads). Na trama das histórias desses jogos, o Reino dos Cogumelos é geralmente alvo de invasão dos koopas, cujo líder é o Rei Bowser Koopa.

A relação entre os cogumelos e os koopas se caracteriza como um conflito político, mas assume também um aspecto étnico-racial. Enquanto os cogumelos são caracterizados normalmente como homenzinhos cuja cabeça lembra a coroa de um cogumelo, os koopas são retratados como criaturas reptilianas, semelhantes a tartarugas.

Koopa TroopaPercebemos, no jogo Super Mario World, por exemplo, que os koopas se organizam como um clã ou uma família. Se por um lado há a tropa koopa composta por uma classe inferior de koopas, de aparência simples e sem grandes poderes especiais, há os koopas de elite, como uma classe nobre, cujos membros possuem espinhos nas carapaças e poderes especiais, como cuspir fogo e subir paredes. Koopa aparece como um sobrenome dessa classe nobre: Bowser Koopa, Ludwig von Koopa, Wendy Koopa e outros mais.

CogumeloTemos, de um lado, os koopas como um povo conquistador e tirano, cuja organização se assemelha à de um império. Do outro lado, os cogumelos se organizam numa pacata monarquia que mal consegue se defender dos invasores e que dependem de um herói (Super Mario) para libertá-los.

Vemos aí uma representação comum da oposição entre um regime de poder legítimo e outro ilegítimo. Abordando o tema politicamente, os cogumelos “vivem em paz” sob uma monarquia cujo regente é bondoso e cuja herdeira, a Princesa Cogumelo (Princess Peach ou Princess Toadstool) é louvada por sua fragilidade e bondade. Já os koopas vivem sob o despotismo do cruel Bowser Koopa, poderoso e temido.

Mas a política se confunde com racismo. Isso fica mais claro na analogia entre a relação de cogumelos e koopas e a relação entre uma sociedade ultracapitalista (como os EUA) e uma nação ditatorial (como o Iraque sob Saddam Hussein). De modo geral, o Ocidente branco se considera mais civilizado do que o Oriente árabe, e, na fantasia ocidental, um regime muçulmano seria imposto pelo terror totalitário.

No entanto, uma análise acurada das relações de dominação revela que qualquer tipo de sociedade com Estado é a subjugação de uma classe por outra. No caso do Reino dos Cogumelos, vemos ainda mais racismo no fato de os regentes serem humanos, como se os cogumelos fossem uma raça colonizada por outra, mais virtuosa e capaz de organizar uma sociedade avançada.

O dia em que a Terra parou [Resenha]

June 8th, 2009

ou A paz é uma ameaça

O Dia em que a Terra ParouEm plena Guerra Fria, um extraterrestre vem à Terra convocar uma reunião com todos os líderes do planeta, para discutir a ameaça nuclear que as briguinhas da raça humana representa para a humanidade e para povos de outros planetas. Mal-interpretado, ele sofre as consequências daquilo que veio erradicar: a imaturidade belicista do Homo sapiens belicosus.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951), dirigido por Robert Wise, roteiro de Edmund H. North, conta a história de uma missão de paz no planeta Terra, confiada ao extraterrestre Klaatu, que pousa com seu disco voador em Washington, DC, EUA, e, ao descer da nave demonstrando intenções pacíficas e um estranho instrumento confundido com uma arma por um soldado humano, é baleado. Ao sinal de perigo, um robô sai da nave e assiste seu mestre, destruindo as armas dos soldados.

Como se o governo tentasse esconder a besteira que fez, leva Klaatu para um hospital do exército, onde ele mostra ter uma saúde e constituição físicas sobre-humanas, recuperando-se rapidamente da ferida da bala. Além disso, possuindo a aparência de um homem humano de uns 35 a 40 anos de idade, revela ter na verdade 78.

Trama 4
Atuação 3
Diálogo 4
Visual 3
Trilha sonora 4
Reflexão 5

Mas não só seu corpo tem a perfeição divina em relação aos padrões humanos. Seus valores morais também são superiores, tanto que ele ordena que o robô Gort pare de destriur as armas dos soldados que tentaram matá-lo. No interesse da harmonia cósmica, ele é integrante de uma raça alienígena superavançada que teme o mal uso da energia nuclear pelos seres humanos, em seus conflitos egoístas e bairristas. Por isso é lógico, para ele, que sua mensagem seja transmitida numa reunião com os líderes de todas as nações da Terra.

Mas o governo norte-americano não pode aceitar essa proposta. Os líderes da Terra estão ocupadíssimos com interesses bélicos que dificultam ou impedem o diálogo. O que para o assessor do presidente dos EUA é um conflito entre o bem e o mal, no qual seu país é o bem e a URSS é o mal, para Klaatu o mal permeira o próprio conflito, o mal está nos dois lados da guerra. O diplomata extraterrestre sente que sua missão tem grandes chances de fracassar.

Felizmente, ele recebe ajuda de uma criança e de um cientista. A pureza do menino o ajuda a entender melhor os seres humanos e a racionalidade ética do prof. Barnhardt permite que ele arranje uma reunião com pensadores de todo o mundo. Infelizmente, seus planos não terminam como esperado. Klaatu é morto pela polícia, ressucitado por Gort, seu robô indestrutível, e deixa para um grupo atônito de cientistas e soldados a mensagem de que o futuro da Terra dependerá de uma escolha que supere os mesquinhos interesses que movem a humanidade a uma guerra iminente.

O que Robert Wise e Edmund H. North trouxeram do espaço?

É animador ver que um diretor norte-americano fez uma história na qual os interesses oficiais de seu próprio país são vistos como algo secundário e a mensagem trazida pelo alienígena, de que há algo muito mais relevante do que pequenos conflitos internos, sobressai.

Já aí, na década de 50, vemos que sempre houve quem vislumbrasse a possibilidade de conseguirmos construir um mundo no qual os interesses da humanidade (e, a posteriori, de todos os povos do Cosmos) seriam unificados. Ao privilegiar uma forma mais universalista, racionalde e desinteressada de conhecimento, no caso a Ciência, que é o meio de contato inicial entre Klaatu e o prof. Bernhardt, afastamo-nos da Política, forma mais sectarista e interessada de lidar com as relações interconscienciais.

Podemos apreender dessa história a compreensão de que a humanidade ainda está extremamente apegada aos seus valores sectários e à necessidade de defendê-los com a guerra. A ordem coordenada pelas elites das diversas sociedades terráqueas é defendida por quem dela mais se beneficia, mas também por aqueles que estão na base da pirâmide social e que não veem outra realidade possível. A paz oferecida pelos alienígenas é uma ameaça à ordem vigente na Terra.

O contexto em que foi produzido o filme enfatizou a ameaça real da Guerra Fria, o conflito entre EUA e URSS, entre Capitalismo e Socialismo. Mas quando Klaatu fala sobre as infantis brigas que os seres humanos mantêm entre si, podemos levar e trazer essa observação para o passado e o presente da humanidade, de modo que, embora tenham surgido outros tipos de conflitos no planeta desde 1951, a mensagem do filme ainda é a mesma.

“Klaatu barada nikto”

O Dia em que a Terra Parou é um dos grandes marcos da ficção científica, sendo influência significativa para as histórias sobre extraterrestres criadas posteriormente, tanto no cinema quanto na televisão e nos video games.

The Lost Vikings II #copy; BlizzardNo hilário Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992), Ash precisa recitar as palavras “klaatu verata niktu” para evitar que a maldição do Necronomicon caia sobre a terra. No entanto, ele se atrapalha com as palavras. Parodiando a paródia, a Blizzard, no jogo The Lost Vikings II, para Super Nintendo, uma bruxa recita palavras parecidas para enviar os vikings por teletransporte, e se atrapalha da mesma forma.

No seriado Mission Hill, um dos personagens descobre que seu vizinho foi o diretor de um pouco conhecido filme de ficção científica no qual um estranho extraterrestre, que lembra muito Gort, desce num disco voador e ameaça a Terra. Quando o garoto resolve exibir o filme no cinema local, todos riem dos efeitos especiais e da interpretação do ator, que era o atual marido do ex-cineasta e que só estrelou porque era namorado do diretor.

Mas a importância maior dessa obra foi quebrar com a tendência de se pensar os extraterrestres como portadores de más intenções, sempre querendo invadir a Terra para colonizá-la ou destruí-la. Neste caso, quem agiu de forma violenta e brutal foram os seres humanos, primitivos demais para entender os propósitos nobres do “homem do espaço”.

Vemos esse tipo de abordagem repetido 15 anos depois na série Jornada nas Estrelas, em que se valorizam as relações diplomáticas entre os povos de planetas diferentes. No seriado Babylon 5, também há uma referência ao filme de Wise: no primeiro contato dos humanos com os minbari, habitantes do planeta Minbar, um gesto de boas intenções do tripulante da nave minbari foi mal interpretado pelos humanos, que iniciaram um ataque que culminou numa guerra. Esta só terminaria quando os minbari, moralmente mais evoluídos do que os humanos, perceberam a inutilidade do conflito.

Também é herdeiro dessa forma de lidar com extraterrestres o cineasta Steven Spielberg, em flmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-terrestrial, 1982). É preciso perceber que, da mesma forma que diferentes grupos humanos têm diferentes modos de ver o mundo, espécies alienígenas teriam formas ainda mais díspares de conceber o universo.

Talvez não pudéssemos parodiar a velha história dos aliens invasores, como no filme Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996) e no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy), se não fosse o rompimento com essa visão etnocêntrica que coloca o ser humano (e, em certa medida, os seres humanos ocidentais) como o modelo de vida inteligente no universo.

Alienígenas e predadores

June 1st, 2009

ou A ficção científica como palco do embate entre masculino e feminino

Um dia desses assisti a um dos filmes que tem sido um dos mais esperados em décadas pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita imaginação, os “aliens” (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens, 1986; Alien 3, 1992; e Alien: A Ressurreição, 1997) e os “predadores” (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema.

Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de predadores? Seria a simples reposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica “a guerra entre o bem e o mal” (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo)?

Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Ora, embora o filme venha sendo prometido há muitos anos (e este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), tudo indica que a idéia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a “motivação política” parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar questões, conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos “presenteia” com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e outras coisas.

Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno. Sem me demorar numa explicação sobre o que é cada um desses regimes, contento-me em explicar que essa classificação significa que os aliens representam o feminino, enquanto os predadores são símbolos masculinos.

Uma das coisas que me chama atenção é a escolha da designação de cada espécie. Ambas são alienígenas (em inglês alien), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este tido como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres).

Os aliens têm uma relação estreita com sua mãe, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois sua procriação depende de um organismo hospedeiro (no caso os humanos) na primeira fase da vida, e dos corpos humanos aprisionados para servir de alimento.

Já os predadores se caracterizam por ser mais individualistas, “livres” num sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas sãp artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, lasers explosivos lançados de seus ombros, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, num gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis.

Resumindo, parece que esse embate simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há muito tempo, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos)  que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e fêmeas humanos, e daí as desigualdades entre eles também.


Texto publicado originalmente na Teia Neuronial Beta, em 25 de março de 2005.